Mulheres inspiradoras na Biblioteconomia

Todo fim de ano surgem listas do tipo “melhores do ano” pela internet. Melhores pessoas, melhores livros, filmes, viagens, projetos, enfim, muitas coisas. Eu adoro! Acho bacana valorizarmos pessoas que fazem mais que o comum pra que a gente viva em uma sociedade bacana. Esse mês foi divulgado no site Think Olga uma lista de mulheres inspiradoras de 2017 e nessa vibe eu decidi criar uma lista de mulheres inspiradoras em Biblioteconomia.

Antes fui pesquisar pra ver se achava algo parecido. Procurei na internet e incrivelmente existem algumas listas que citam bibliotecários, às vezes incluem alguma bibliotecária , mas não existe um número expressivo. Em uma área fortemente ocupada por mulheres, isso é, no mínimo, sintoma da desvalorização que a gente sofre no mercado de trabalho dentro da nossa sociedade. Inclusive encontrei um artigo de 2010 de uma pesquisa realizada no Maranhão (artigo antigo, mas muito relevante atualmente, que retrata só uma parte do mercado de trabalho brasileiro, mas serve de exemplo geral) onde podemos ver que na Biblioteconomia, mais homens que mulheres ocupam cargos de gerência e chefia, mesmo quando têm pouco tempo de formação. Adicionado a isso, bibliotecários ganhavam na época 79% mais que bibliotecárias. Em uma profissão majoritariamente ocupada por mulheres, onda estamos nós?

Obviamente não estamos recolhidas em salas escuras de processamento técnico, submissas às circunstâncias da vida.  Bibliotecárias estão aí fazendo a roda girar, colocando a cara a tapa e contribuindo efetivamente para a construção de uma sociedade melhor, embora muitas vezes isso não seja reconhecido. Por isso decidi elaborar essa lista.

Deixo claro: existem muito mais profissionais inspiradoras do que as listadas aqui, porém essas são as mulheres que eu conheço. Fiquem a vontade para inserir, nos comentários, as que vocês conhecem e acham que vale a indicação. Podemos também olhar pro lado e começar a enxergar aquelas que fazem um trabalho incrível perto da gente, nas pequenas comunidades, inclusive. Nós movimentamos a Biblioteconomia, com nossos colegas bibliotecários, sim, mas em muito maior quantidade. Vamos nos fazer visíveis!

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Ilustração: Rita Petruccioli, tirada daqui.

Carla Hayden – Carla é a primeira mulher e primeira pessoa negra a ocupar o cargo de bibliotecária na Library of Congress, uma das mais importantes bibliotecas do mundo. Além disso é a primeira profissional de Biblioteconomia a ocupar o cargo em 60 anos, sendo a terceira a alcançar esse posto em toda a história da biblioteca. Nomeada pelo ex-presidente Barack Obama, Carla se apaixonou pela profissão quando trabalhou em uma biblioteca pública ainda jovem e chegou a ser presidente da American Library Association antes de ocupar o cargo de bibliotecária na LOC.

Celia Ribeiro Zaher – Bibliotecária e professora. Foi diretora Divisão para o Desenvolvimento da Documentação de Bibliotecas e Arquivos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), diretora da Divisão de Promoção de Livros, Arquivos, Audiovisuais e Intercâmbio Internacional no Setor de Cultura e Comunicação, diretora geral da Biblioteca Nacional e diretora do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde.

Gabriela Pedrão – Atuando como youtuber, a Gabriela é doutoranda em Ciência da Informação, bibliotecária e blogueira no É o último, juro!A partir do seu canal no Youtube, Gabriela ajuda a popularizar a Biblioteconomia, fala sobre séries e realiza um clube do livro que ajuda a incentivar a leitura de forma divertida. Ela também colabora no blog Bibliotecários Sem Fronteiras, um blog que apresenta diversas discussões interessantes para a profissão e mostra a Biblioteconomia de forma menos acadêmica.

Hagar Espanha Gomes – formada em Biblioteconomia, Hagar é livre-docente em Bibliografia na UFF. Integrante do grupo fundador do curso de Biblioteconomia na mesma Universidade, foi coordenadora do curso de Mestrado em Ciência da Informação no IBICT e foi parte da comissão editorial da revista Ciência da Informação, importante periódico da área. Atualmente é uma das referências em linguagem documentaria, terminologia e desenvolvimento de tesauros.

Jessamyn Charity West  Bibliotecária, ativista, educadora, pesquisadora, escritora, blogueira, profissional de tecnologia e apaixonada por bibliotecas. Jessamyn começou a escrever sobre Biblioteconomia em 1999, com um dos primeiros blogs da área, o Librarian.net,  e se tornou conhecida como “Internet Folk Hero“. Jessamyn possui ideias polêmicas que levantam muitas discussões, mas só pelo engajamento que ela tem na área, já se torna uma inspiração. Aqui tem uma entrevista  com ela (em inglês).

Lúcia Fidalgo – Bibliotecária, escritora, professora e contadora de histórias. Possui diversos livros publicados, foi membro na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil-FNLIJ, integrou a primeira equipe do Programa Nacional de Leitura (Proler) e já atuou em diversos projetos governamentais, tendo, inclusive alguns dos seus livros sido adotados em escolas públicas. Além disso dirigiu o Departamento de Bibliotecas Públicas do Estado do Rio de Janeiro, e a Biblioteca Pública do Estado, já foi membro da CRB7, consultora da UNESCO no Projeto de Memória da Escola no REMEC e integra o grupo de contação de histórias Morandubetá.

Lucia Lino – Conhecida por sua atuação no Conselho Regional de Biblioteconomia do Rio de Janeiro, é também bibliotecária no Museu de Astronomia e Ciências Afins, onde são oferecidos importantes cursos direcionados à preservação e conservação de patrimônios e acervos culturais e científicos. É responsável, junto com seu esposo e filha pelo projeto Compartilhando Histórias na Praça Granito e é mãe da escritora Mariene Lino, que possui 16 anos e já tem três livros publicados.*

Marianna Zattar – Já atuou em bibliotecas, atualmente é professora do curso de Biblioteconomia da UFRJ e uma das bibliotecárias mais conhecidas no estudo de Competência em Informação no Brasil. Além de lecionar, Marianna participa de projetos voltados para o desenvolvimento de competência em mídia e informação, como o projeto de extensão “Competência em Informação na iniciação científica do Curso Integrado em Meio Ambiente” realizado em parceria com outros professores e alunos, da UFRJ e do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Também tem atuação ativa em eventos voltados às práticas de CoInfo, como o Fórum sobre Competência em Informação e direciona seus esforços para boas práticas na utilização de recursos informacionais.

Mariza Russo (faleceu em 2017) – Idealizadora do curso de Biblitoeconomia da UFRJ, Mariza coordenou a equipe de implantação do curso e a equipe de elaboração do material didático para o curso de Biblioteconomia a distância que será oferecido pela Universidade, coordenou o Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ, participou do grupo de trabalho que desenvolveu a Proposta Pedagógica do Curso de Mestrado Profissional em Gestão e Inovação em Unidades de Informação. Mariza foi importante figura na luta pelo reconhecimento da Biblioteconomia e pelo fortalecimento do curso da UFRJ a nível nacional.

Paula Macedo  Bibliotecária que trabalha com UX Design. Longe das bibliotecas, é colaboradora no site uxdesign.cc Brasil e participa do projeto Caminhos do flow , que trata sobre felicidade, espiritualidade e criação de serviços. De acordo com a Paula, em uma entrevista para o site uxdesign, na área de UX, profissionais de Biblioteconomia podem colocar em prática conhecimentos de indexação, taxonomia, vocabulário controlado e técnicas de estudos de usuários. Ou seja, é uma área muito interessante para bibliotecários, ainda mais com as atuais mudanças do mercado de tecnologia e a real necessidade de mudança de relacionamento com cliente e posicionamento de marcas.

Soraia Magalhães – Soraia é bibliotecária, escritora e blogueira. Lutou pela reabertura da Biblioteca Pública de Manaus e por isso apareceu na lista Movers and Shakes 2013, realizada pela Library Journal. Escreve sobre bibliotecas do Brasil no blog Caçadores de bibliotecas e divulga esses importantes espaços para o público em geral.

Tainá Batista – Segundo seu currículo Lattes, Tainá é “Coordenadora de Atendimento à Comunidade do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e Diretora do Centro Brasileiro do International Standard Serial Number (CBISSN). Está sob sua coordenação o Catálogo Coletivo Nacional de Publicações Seriadas (CCN), o Programa de Comutação Bibliográfica (COMUT), a Rede Bibliodata e a Biblioteca do IBICT. Também é de sua responsabilidade a coordenação da Rede de Bibliotecas das Unidades de Pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (RBP) e o Portal do Livro Aberto em Ciência, Tecnologia e Inovação (PLACT&I).”

Thalita Gama – Bibliotecária que atua em biblioteca universitária e empreendedora. Idealizadora do blog Santa Biblioteconomia, Thalita dá aulas e elabora materiais para concursos, compartilha dicas para provas e auxilia bibliotecários concurseiros a alcançar a aprovação. Tem forte presença na internet.

* Algumas informações desse texto foram atualizadas e corrigidas.

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Fact checking e os bibliotecários

Existem assuntos que aparentemente não tem ligação nenhuma com Biblioteconomia, mas se você parar para analisar, na verdade são tão relacionados que a gente acaba não percebendo mais. Esse é o caso da prática de checagem de fatos, muito conhecida como fact checking, prática que bibliotecários já adotam há mais de 100 anos.

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A checagem dos fatos não é uma atividade nova, porém se popularizou com a massificação do uso da internet, quando o número de notícias e a velocidade de disseminação aumentou exponencialmente. A internet está cheia de comentários, opiniões, discussões e notícias. Nela, qualquer pessoa pode criar e divulgar conteúdo, sem necessariamente ter compromisso com a verdade. É nesse sentido que a checagem de fatos é muito importante, pois a disseminação de informações falsas, pode ter consequências graves como movimentação social sem propósito, violência e até morte.

Popularizada, Fact-checking se tornou uma área de atuação para jornalistas. É entendida como uma metodologia de confrontamento de dados utilizada para verificar se uma notícia é falsa ou não, muito frequentemente usada para a avaliação e divulgação de notícias.

Segundo Cristina Tardáguila, da Agência Lupa, em um curso online que fiz sobre o assunto, oferecido pela Associação Nacional de Jornais e pelo Knight Center, foi na década de 1990 que surgiu a primeira equipe focada em checagem dos fatos, a “Ad police”. Nos Estados Unidos, criada pelo jornalista Brooks Jackson, o mesmo que em 2003 criou o primeiro site destinado a isso, o Factchecking.com.

A metodologia adotada não é universal, ou seja, diversas agências adotam diferentes passos porque cada uma atua em diferentes frentes. Mas é imprescindível que o processo seja transparente, afinal, se não é transparente, tampouco é confiável. Além disso, gerar notícias duvidosas é justamente o contrário do objetivo dessa prática.

A Agência Lupa, autointitulada a primeira agência especializada em fact-checking no Brasil, adota em suas checagens uma metodologia de oito passos. Vou mostrar para dar continuidade ao raciocínio:

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No campo do Jornalismo, a checagem tem por objetivo a elaboração e divulgação de notícias, por isso, obviamente, algumas questões como publicação e pesquisa de campo são ações adotadas principalmente por profissionais dessa área.

Em Biblioteconomia, por sua vez, checar fatos se volta mais para a construção do conhecimento por meio da busca por informação de qualidade, o reconhecimento de fontes confiáveis e a necessária pesquisa. Há algum tempo, durante uma aula de Recursos Informacionais da faculdade, discutimos sobre os padrões da comunicação científica. Entre outros tópicos, falamos sobre qualidade, credibilidade e confiabilidade. São características fundamentais conhecidas há muito tempo por bibliotecários e que não podem ser ignoradas no processo de checagem de informação.

Bibliotecários são (ou deveriam ser) naturalmente engajados com a disseminação de informações verdadeiras. Com isso, há anos discute-se as competências necessárias para encontrar e produzir essas informações dentro de bibliotecas e unidades de informação.

Embora as metodologias adotadas por esses profissionais sejam diferentes, um dos objetivos de ambos é orientar usuários com informações corretas, por isso o que me interessa aqui, é a percepção de que esses profissionais podem dialogar para a criação de uma cultura de verificação e disseminação de informações corretas, com análise crítica. Além disso, me interessa sobretudo a descoberta de como bibliotecários, a partir da checagem de fatos, podem e devem contribuir de forma efetiva para o fortalecimento da competência em mídia e informação.

“Competência em Mídia e Informação é definida como uma combinação de conhecimento, atitudes, habilidades e práticas para o acesso, analise, avaliação, uso, produção e comunicação de informações e conhecimentos de maneiras criativas, legais e éticas e que respeitem os direitos humanos.” – IFLA, com tradução minha

Muitas instituições estão somando esforços com bibliotecários para fortalecer a ideia da importância do desenvolvimento de competência em informação para a checagem de fatos. No processo de identificação é onde os bibliotecários se inserem prioritariamente. Nesse sentido, a IFLA lançou esse ano um infográfico com orientações para identificar notícias falsas:

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Na verdade, checar fatos vai muito além de uma prática informacional pessoal, porque tem impacto significativo na vida em coletividade, na construção da cidadania. Identificar notícias falsas tem consequências positivas em época de eleição, por exemplo. O contrário também é verdadeiro. A eleição de Collor à presidência por conta de manipulação serve como exemplo. A atual condição do Brasil também. Cidadãos que sabem diferenciar boatos de notícias verdadeiras possuem embasamento para exigir seus direitos, para cobrar, para lutar. Em paralelo, saber analisar e utilizar informações é  ter competência em informação.

Bibliotecários têm trabalho com competência em informação dentro de escolas, com orientação sobre plágio ou pesquisas, por exemplo. Também têm realizado ações em unidas públicas de informação, com trabalhos voltados à educação ambiental e nutricional, em conjunto com outros profissionais. E muitas outras atividades com o objetivo de desenvolver essa habilidade. Todas essas ações atravessam a checagem de fatos, por isso acredito que bibliotecários e jornalistas sérios possuem muito potencial de diálogo nesse sentido e desse diálogo podem surgir bons frutos para a sociedade.

View story at Medium.com

Gestão da informação e espiritualidade

Não é novidade pra ninguém que a quantidade de informação produzida e acessível cresceu exponencialmente nos últimos anos. Mesmo quem não possui computador – a principal porta de entrada – pode sentir os efeitos dessa realidade. O excesso de informação causa diversas mudanças na vida em sociedade e no âmbito pessoal. Não sei julgar ainda se são boas ou ruins, mas me parecem, pelo menos, irreversíveis.

No ano de 2016 eu tomei conhecimento sobre muitas religiões as quais eu não conhecia, li escritos de muitos guias espirituais e mestres, pratiquei diversos métodos de meditação, conversei com muitas pessoas que estão tentando transformar suas vidas através da espiritualidade, vi gente começar a praticar Yoga, vi surgirem movimentos em favor de uma vida minimalista e com significado. Eu estudo misticismo desde os meus 8 anos (na Ordem Rosacruz), mas em 2016 eu realmente entrei numa vibe focada no espiritual e você sabe (talvez não saiba, e tudo bem), quando a gente pensa, a gente atrai. Por todos os lados comecei a receber informações e perceber conteúdos voltados para isso. Me parece que muita gente atualmente busca ser espiritualizado, iogue, saudável, amante da natureza, fazer seus cosméticos em casa, comer comida de verdade, seguir a cultura hindu. Não acho isso negativo de forma alguma, inclusive me incluo, mas confesso que o excesso de conteúdo que surge a partir dessa tendência me deixou confusa.

Em meio a tantas opções pra conquistar a felicidade, qual é a melhor? Como decidir o que aplicar em minha rotina diária? Como de uma hora para outra a massa descobriu que a cultura Hindu é maravilhosa? Como ser realmente sustentável? Afinal, consumir carne faz mal ou faz bem? E cosmético caseiro, como faz? Uma desconstrução não se efetiva do dia pra noite e o conhecimento é a chave pra tomada de consciência, que gera a real mudança. Conhecimento é produto de um processo cognitivo que ocorre quando relacionamos a informação que obtivemos com nossa vivência. A vivência a gente tem, logo, precisamos buscar informação. Estamos sempre sendo bombardeados com mais e mais informação, então isso não é um problema, né? Só que não. Existe uma linha tênue aí. Por isso tenho refletido muito ultimamente sobre os efeitos do excesso de informação sobre minha espiritualidade. Ou mais especificamente, os benefícios da gestão da informação para a minha espiritualidade.

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Naturalmente não sou uma pessoa que sabe lidar com excessos. Estou sempre excluindo arquivos do celular, computador, livros da estante, roupas do guarda-roupa. Estou sempre tentando deixar os ambientes vazios, pois lido melhor com as poucas opções, porém essa obsessão pelo mínimo no campo físico é inversamente proporcional ao caos existente na minha mente causado pela também obsessão que tenho por informação. Por exemplo, tenho mania de buscar informações antes de praticar qualquer coisa. Leio, leio, leio, leio incansavelmente e simplesmente continuo lendo, não consigo sair do lugar. O acúmulo de conteúdos me paralisa.

Obviamente não estou sabendo administrar o excesso de informação. Ao perceber isso, eu decidi fazer algo a respeito, e a primeira coisa que fiz não foi ler para descobrir, eu decidi parar. Apenas parar de ler tantas coisas, seguir tantas pessoas, estar tão imersa em conteúdos para imergir em mim mesma. Só isso, sem me preocupar com o que é certo, com o que é tradicional, com ensinamentos de mais de mil anos e etc. Nesse processo, aprendi algumas coisas sobre essa jornada de autoconhecimento e (sério!!!) gestão da informação:

Falar de gestão da informação nos remete ao mundo corporativo, porém há algum tempo tenho percebido que algumas práticas de planejamento e tomada de decisão podem (e devem) perfeitamente ser aplicadas à nossa vida pessoal. Quando percebi isso, a primeira atitude que tomei, como já disse, foi simplesmente parar. Essa atitude não significa se manter inerte, mas observar a mim mesma, identificar minhas necessidades informacionais, mapear meu fluxo informacional e reavaliar meus parâmetros com base na limitação da minha realidade, sem olhar pros lados.

Muitas vezes, já sabemos o que precisamos. Nós sabemos o que é preciso para emagrecer, por exemplo, quais alimentos engordam, quais alimentos são bons para o organismo. Nós apenas não colocamos em prática nossos conhecimentos, por diversos motivos que podem ser resumidos em uma palavra: procrastinação. Com relação à espiritualidade, o corpo sente e o coração indica o melhor caminho. E este para mim foi o silêncio. Não é preciso curtir páginas no Facebook, nem perfis motivacionais no Instagram, muito menos ficar lendo textos de diversas vertentes espirituais (embora não tenha problema em fazer essas coisas, se você julgar necessário). Apenas fique em silêncio, se observe e descubra o que fazer, descubra suas reais necessidades.

Feito isso, parti para a obtenção de informações que realmente eram necessárias pra mim tendo como critério a avaliação de autoridade. Busquei fontes de informação confiáveis, textos escritos por pessoas as quais considero confiáveis no assunto. Claro que não significa que descartei textos de pessoas comuns (até porque sou zé ninguém e tô aqui escrevendo), mas tive que partir de algum lugar e procurar informações confiáveis é a melhor opção.

Na prática, comece a meditar antes de aprender a meditar. Buscar informações é extremamente necessário, mas praticar é a melhor forma de descobrir o que é melhor pra você. Ao longo do tempo, a gente vai usando as informações obtidas, mas isso acontece ao mesmo tempo em que se busca mais e mais. A vida vai nos encaminhando para os caminhos que devem ser seguidos, com calma e clareza. Querer ser especialista nas práticas antes de praticá-las é, além de impossível, uma tremenda perca de tempo. Não se preocupar desnecessariamente com os efeitos é importante.

Acredito que o excesso de informação tem causado confusão em muitas pessoas além de mim. Algumas podem estar sendo enganadas por pessoas que se dizem detentoras do mapa rumo à realização, ou pior ainda, podem não estar transformando suas próprias vidas em função de dúvidas. Autoconhecimento é um caminho e não um ponto de chegada, mas muitas vezes isso não é tão claro e buscamos sempre algo externo para nos guiar, quando na verdade o caminho é pessoal, tem altos e baixos e o que vem de fora tem que ser administrado pra nos influenciar na medida em que permitirmos sermos influenciados. Saber gerir isso é também uma forma de se manter em paz.

Desafios da biblioteca escolar

Hoje eu quero falar de bibliotecas escolares. Eu tenho alguma experiência em sala de aula (me formei em magistério), talvez por isso tenha me encaminhado naturalmente para estágios em bibliotecas escolares logo no início da faculdade. Passei, como aluna-leitora, por 2 bibliotecas escolares. Como estagiária, por 3. Foram experiências bacanas onde aprendi muito sobre questões de Biblioteconomia e também de educação, mas principalmente serviram pra consolidar meu pensamento com relação à instituição escolar. Para mim, é uma estrutura extremamente falha em todos os sentidos, sendo um espaço de manutenção da ordem social dominante. A biblioteca escolar não foge muito dessa proposta, afinal está embaixo do guarda-chuva da educação institucionalizada. Mas isso é tema pra outro post.

Existem muitos artigos e estudos que tratam da consolidação da biblioteca escolar como um espaço necessário, mas o que me proponho aqui não é teorizar sobre biblioteca escolar de forma científica. Quero falar de práticas dentro desse espaço, pois de acordo com as experiências que tive, pude vivenciar muitas situações que valem uma análise.

Cabe ressaltar que esse texto (e esse blog, aliás) se baseia na minha experiência dentro de instituições de ensino. Não pretendo aqui esgotar o assunto, nem tenho autoridade para falar por uma classe inteira. O que busco é levantar o debate que julgo necessário a esse campo de atuação de bibliotecários.

Vou começar, explicitando alguns pontos bastante críticos que percebi ao longo do tempo:

Biblioteca como espaço de castigo

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Tirinha de Bill Watterson.

Essa é a prática mais desprezível e mais comum nas bibliotecas escolares. A escola, enquanto instituição que repudia aqueles que não se encaixam nos padrões estabelecidos, simplesmente não sabe o que fazer com os alunos, se esses não podem estar juntos àqueles que estão “controlados”. O que fazem? Colocam o aluno no último lugar onde ele gostaria de estar: a biblioteca silenciosa, onde ele deve ficar isolado, pagando penitência por meio da leitura ou outra atividades-passa-tempo. Isso acontece também em casos onde o aluno não foi realizar alguma atividade externa junto com a turma dele. Muitas vezes, se a atividade tiver duração de um dia inteiro, o aluno passa todo o tempo em que deveria estar em sala de aula, dentro da biblioteca esperando a hora passar. O que cabe á equipe da biblioteca nesse momento?

Biblioteca como espaço de recreação

Acontece assim: na busca por tornar a biblioteca um espaço atraente para os alunos, tenta-se alcançar o objetivo de incentivar a leitura por métodos que acabam levando a ações de recreação. Talvez por medo ou despreparo (ou desinteresse mesmo) as ações são voltadas para o lúdico servindo muito bem ao papel de tornar esse espaço acolhedor, mas zero atingindo o propósito de formar leitores, pensadores críticos, contestadores. Aliás, o que menos se pretende em uma escola é formar contestadores, infelizmente. E a biblioteca escolar muitas vezes segue esse ritmo. É preciso entender que bibliotecários não são recreadores. Ocupa-se um espaço que se propõe à educação, para fins de educação, criação de conhecimento, fomento à cultura. É um trabalho cansativo e difícil, por isso muitas vezes fugimos da proposta inicial. Normal. A educação é uma construção, um processo orgânico que requer inclusive erros para se efetivar. Mas na para alcançar de alguma forma o objetivo a que nos propomos, é preciso repensar constantemente o caminho. E para isso, se faz necessário pensar criticamente qual a maneira de se alcançar os objetivos. Ter um espaço lúdico não é problema, a questão é transformar a biblioteca escolar em apenas um espaço lúdico.

Biblioteca fechada

Nem tenho muito o que dizer sobre isso de tão absurdo que é. Lembro que durante o Ensino Fundamental eu adorava ir à biblioteca e muitas, muitas, muitas vezes ela estava fechada sem motivo. Enquanto estagiária, já tive que fechar a biblioteca para reunião de professores ou qualquer outra coisa que não deveria necessariamente acontecer nesse espaço.

Biblioteca somente para apoio para docentes

Inicialmente a biblioteca escolar é um espaço de apoio pedagógico mesmo. Ela está ali para se relacionar intimamente com as necessidades dos professores e alunos, dando suporte às atividades realizadas em sala de aula. Veja bem, eu disse suporte às atividades. A função da biblioteca escolar não é fazer as vontades do corpo docente, como se esses fossem autoridade dentro desse espaço. A biblioteca é muito mais que isso. Vivi a experiência de estar em uma biblioteca onde o acervo era composto por livros doados por editoras, com a finalidade de que os professores realizassem avaliação e a posterior adoção do título em sala de aula durante o ano letivo. Ou seja, a biblioteca era para os professores, dos professores. A relação da bibliotecária era com as editoras, solicitando livros de interesse do corpo docente para serem avaliados e nisso constituía a política de desenvolvimento de coleções. O que sobrava ia pro acervo. O foco eram os livros didáticos. Existiam livros raros na biblioteca, porque a direção da escola se recusava a permitir o descarte – inclusive livros de informática antigos – com a desculpa de preservação do patrimônio. Nesse espaço, cheguei a realizar pré-matrícula de alunos. Ok, esse é um problema estrutural muito maior que a discussão sobre a biblioteca, mas vejo que esses espaços muitas vezes estão sujeitos a isso. Os professores ditarem as atividades que devem ser feitas, quais livros são adequados, objetivos, missão e valores da biblioteca. Acontece muito.

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Esses são os três pontos principais da minha crítica ao modo como estamos lidando com bibliotecas escolares. Com elas, junta-se o fato do incentivo à leitura ser papel secundário em todas as unidades pelas quais passei. Incentivo à leitura fica no imaginário dos bibliotecários que frequentam eventos científicos. Mas porque dentro das bibliotecas ele não ocupa papel de destaque? Acredito que seja pela inexperiência dos profissionais da Biblioteconomia em lidar com o trabalho pedagógico necessário a essa prática. Na minha visão, essa inexperiência que leva muitas vezes à formação de bibliotecas onde o lúdico é a máxima. Boa intenção em atrair os usuários, mas não alcançando o objetivo principal.

Bom, e a equipe da biblioteca?

Uma das críticas que tenho mais forte com relação às bibliotecas escolares, é o papel submisso que a equipe assume diante da escola. Autonomia é algo que falta e o medo impera nesses espaços. Existe o entendimento de que a equipe é volúvel e facilmente substituível. Ou a biblioteca se encaixa, ou a gestão muda. Simples. Acaba-se deixando a tomada de decisão na mão do corpo docente, porque esses tem mais autoridade na instituição do que a equipe da biblioteca. Percebo que todos mandam nas políticas da biblioteca escolar: diretores, professores, pais, alunos, menos a bibliotecária ou bibliotecário. Essa é uma discussão que tive muitas vezes em sala de aula. Defende-se um posicionamento mais ativo da equipe da biblioteca, um certo “pulso firme”. Mas não me parece tão simples assumir um papel ativo dentro de um contexto de desvalorização. Uma biblioteca escolar está submetida a regras maiores e eu entendo que deve haver um diálogo constante com todas as esferas envolvidas no processo educativo. Mas, realmente, como estabelecer esse diálogo quando existe na instituição a cultura de desvalorização da biblioteca? Como manter o pulso firme com seu emprego em jogo? Ainda não encontrei soluções pra essas questões.

Uma nova perspectiva

Existem muitas coisas a melhorar ainda pra que as bibliotecas escolares recebam o valor que elas merecem. A atuação dos profissionais é uma delas. Se valorizar e valorizar o espaço em que atuam pode fomentar a criatividade e ser o primeiro passo para um reestruturação da biblioteca dentro das instituições, sem que seja necessário criar embates. Durante os estágios que fiz, diante de situações que me deixavam com vontade de fazer mais e melhor, tive alguns insights. O mais importante deles, na minha opinião, foi provocado pelo incômodo de perceber que a biblioteca escolar se posiciona muito distante da prática educativa. Acredito que uma mudança de perspectiva – nos orientarmos pelas necessidades da comunidade e nosso potencial em atendê-las, ao invés do produto que oferecemos – por parte da equipe da biblioteca, ajudaria a iniciar a mudança nesse quadro.

A equipe da biblioteca escolar é parte do corpo pedagógico da escola. Está dentro da instituição com o mesmo objetivo dos professores, diretores, auxiliares: contribuir para a formação dos alunos. A equipe da biblioteca escolar tem que pensar de maneira didática, realizar planejamentos com fim de orientar a atividade educativa, acompanhar o ritmo das aulas de forma integrada, participar de reuniões com a equipe, estar por dentro do projeto político pedagógico. Não vamos confundir e achar que estou propondo que bibliotecários se coloquem como professores. Cada um no seu quadrado. Mas a equipe da biblioteca escolar tem função pedagógica tanto quanto todos os outros que compõem o corpo da escola. Por que ainda não fazemos isso? por que nos mantemos à distância do ato educativo?

 

O processo de produção de livro: sobre editores e bibliotecários

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Fonte

No início da faculdade tive a oportunidade de ir a uma editora conhecer um pouco do processo de publicação de um livro. Não sei se é fácil ou não conseguir ver de perto o funcionamento de uma editora, mas eu nunca tinha visitado uma antes então fiquei super animada. Além disso fui visitar uma editora que também é gráfica, o que até a década de 80 era comum, mas que hoje em dia é raridade.

No dia quase não conseguimos entrar por uma série de problemas, mas no fim a visitação aconteceu e lá pude entender como o livro nasce, cresce e é publicado. Como eu tinha uma curiosidade imensa sobre esse processo (não encontro explicação em quase nenhum lugar da internet) decidi escrever aqui um pouco do que conheci. Porém antes é preciso deixar claro que fiz essa visita no início da faculdade, então algumas coisas podem não ser mais do mesmo jeito, além disso fui a uma editora, logo o processo em outras pode conter diferenças.

Pra começar, quero dizer que todos os setores da editora trabalham em conjunto, apesar de cada um ter seu setor, todos formam uma grande equipe composta por editores, produtores, publicitários, administradores e etc. Nesse sentido, bibliotecários também podem ocupar espaço nessas empresas, em um trabalho conjunto imprescindível para a uniformização da representação da literatura nacional no Brasil e fora dele. Isso eu explico depois.

Bom, a partir do momento em que está na editora o livro leva em torno de 9 meses para chegar às livrarias (sem contar o período de escrita), antes disso ele passa por várias etapas, pessoas e muitas cabeças quentes, repletas de ideias e visão de negócios. A gente esquece, mas livro também é negócio e gera muito dinheiro, mesmo com as inconstâncias do mercado. Em tempos em que livrarias são fechadas e em cada esquina alguém diz que no Brasil não tem leitores, a gente pode duvidar desse setor de mercado, contudo ele está aí nem tão forte mas muito firme.

Existem duas etapas fundamentais para que um livro seja publicado. A primeira é movida pela vontade/necessidade/oportunidade de escritores e/ou editores e/ou mercado, e é composta por concepção da ideia, autorização, pesquisa e realização. Pensar a ideia do livro, o conteúdo, análise de mercado, viabilidade. A segunda etapa é a produção do material. Para a primeira etapa existe o editor de livros, para a segunda o produtor editorial.

Na primeira fase, existem três formas do conteúdo surgir em uma editora:

  • Autor > editor

Desta forma, alguém que decida escrever um livro o faz livremente. O próprio escritor pesquisa, recolhe arquivos, escreve, produz e, ao fim, entra em contato com uma editora para que o editor, se achar interessante, leia o original, apresente para a equipe editorial e dê início à produção, caso decidam investir nele. Dessa maneira, o autor recebe apenas pela venda dos exemplares.

  • Editor > autor

O editor, além de todo o trabalho que cabe a ele de avaliação e acompanhamento da produção, também pode conceber ideias que julgue ser de interesse mercadológico da editora onde ele trabalha. Tendo a ideia, ele apresenta para a equipe editorial e, se aprovada, o editor fica responsável por conseguir um escritor para dar forma textual à sua ideia. Assim, inicia-se um trabalho em conjunto para dar vida à obra. Sendo contratado para escrever um livro, o autor recebe pelo trabalho de escrita e pelos direitos autorais.

  • Tradução

Tradução de livro é a maneira do livro parar nas estantes mais conhecida pelos leitores, afinal a obra já existia só foi traduzida. Mas como foi escolhido? Geralmente são best-sellers, livros de muito sucesso em outros países, que são adquiridos diretamente com a editora que o lançou ou de maneira bem inusitada… em feiras de livro. Se for comprado diretamente na editora original, podem ser iniciados os trabalhos de tradução, preparação de originais e lançamento; se for comprado em feiras, é necessário realizar um processo burocrático para obter os direitos sobre ele. A partir disso, os editores contratam um tradutor. Não sei se o tradutor também ganha por venda de exemplares, além do trabalho de tradução. Se alguém souber, me diz aí. 

  • Leilão

Pois é, por essa eu nem esperava. Os direitos de publicação de algumas obras podem ser adquiridos em leilões, sim, leilões. Por exemplo, uma editora detentora dos direitos está leiloando a coleção completa do Harry Potter, outras interessadas fazem propostas, a que pagar mais, leva. Simples assim. Bacana, não?

Depois de comprado ou escrito, o livro passa para as mãos do produtor editorial que fica responsável por entrar em contato com diagramadores, gráficas, capistas (quem faz a capa) e toda a equipe envolvida na criação da parte física. Essas pessoas geralmente são freelancers, mas nessa editora onde eu fui, a gráfica é própria, o que é um diferencial mas também um limitador, pois não é possível utilizar todos os tipos de materiais na elaboração do livro por lá. Mas isso é o de menos para nós aqui.

Depois de um longo período, quando o livro fica pronto para ser vendido, quem fica responsável por ele são as equipes de venda e marketing. São elas que colocam o livro nas prateleiras, bombardeiam nossas mentes com informações até nós querermos comprar e nos vendem quando vamos buscar na livraria mais próxima. Nós, que recebemos dos livros conteúdo necessário para a formação pessoal, acadêmica e profissional e que, através deles, adquirimos capacidade para transformar se não a realidade, a nós mesmos.

Tá, mas onde entram os bibliotecários nessa história toda? Na produção da parte física do livro com a representação da informação e da obra. Existe uma coisa chamada “catalogação na fonte”, que nada mais é que a catalogação realizada antes do livro ser publicado e que gera uma ficha catalográfica impressa no verso da página de rosto do exemplar.

Essa ficha segue regras internacionais e demanda conhecimentos especializados e utilização de códigos, normas e padrões específicos que é de domínio nos bibliotecários. No Brasil, ela é regulamentada por lei. Existem duas instituições responsáveis por  fazer esse serviço, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL). Os livros também precisam receber um número internacional padronizado (ISBN), que é de responsabilidade da Biblioteca Nacional.

E qual a importância disso tudo? A catalogação na fonte tem como objetivos principais a uniformização da catalogação em nível nacional e internacional e a facilitação da recuperação e o intercâmbio de informações bibliográficas.

Tá, mas como é feito? As editoras entram em contato com as instituições responsáveis e solicitam a realização da ficha. Bibliotecários realizam o serviço. A equipe editorial insere a ficha no livro. Solicitam o número ISBN à Biblioteca Nacional. Com tudo finalizado, enviam o livro pra impressão. Por fim, existe a lei de depósito legal, que diz que todos os títulos produzidos no país devem ter um exemplar entregue à BN. E seremos todos felizes para sempre. 😉

Viu? O profissional bibliotecário marca presença em várias partes do processo de materialização do livro. Algumas editoras possuem em sua equipe bibliotecários contratados, que auxiliam em pesquisas, padronizações e burocracias da catalogação. Outras contratam bibliotecários freelancers. No Brasil, o segundo método é mais comum, mas esse é um campo de trabalho que deve ser ocupado por nós (sente eu já me incluindo ;p). É necessário uma parceria entre editores e bibliotecários para que a produção literário do país se fortaleça cada vez mais.

Bom, acho que deu para entender um pouco sobre a publicação de um livro. Infelizmente na visita que fiz não tirei nenhuma foto para mostrar.

O que é Biblioteconomia?

Talvez você nunca tenha ouvido falar esse termo e esteja com a língua enrolada. Calma, respira, vamos lá: Biblioteconomia. BI-BLI-O-TE-CO-NO-MI-A. Isso, isso mesmo! Ou talvez você já tenha ouvido falar alguma coisa assim, mas não saiba o que significa. Acha que é “alguma coisa de livro com Economia”.

No início da graduação, eu também não sabia o que é Biblioteconomia. Sinceramente a primeira vez que ouvi falar foi por meio de uma colega que estava se graduando na área, mas eu só conhecia o termo mesmo. A primeira definição que tive foi:

“(…) a área do conhecimento que se ocupa com a organização e a administração das bibliotecas e outras unidades de informação, além da seleção, aquisição, organização e disseminação de publicações primárias sob diferentes suportes físicos.” – Targino, M. G.

Bonito, beleza, mas meio abstrato. E pra falar a verdade, meio raso, porque Biblioteconomia é muito mais (mas isso só percebi com o tempo). Na real – tentando ser clara – Biblioteconomia é a área que estuda a organização e disseminação da informação e do conhecimento. Bibliotecário é o agente, a ponte entre o conhecimento e o buscador. Informação, nesse contexto, é exatamente tudo o que constitui mensagem que pode ser transmitida de uma pessoa para outra e transformada em conhecimento. Tudo.

Desde que entrei no curso de Biblioteconomia, muitas pessoas ao me ouvirem dizer o que estudo, fazem uma cara de desânimo absoluto e mudam de assunto. Outras se empolgam acreditando que vou ser economista. Muitas também acham que não vale a pena estudar para exercer uma profissão que “será extinta”, ou que eu só quero fazer um concurso público e garantir a vida, ou ainda, que só entrei porque a nota de corte é pequena. A verdade é que não é bem assim, o bibliotecário não é mais aquela velha ranzinza que te persegue dentro da biblioteca ou que ao ouvir sua respiração grita logo um “shiiii”, o bibliotecário não é aquela pessoa que passa oito horas sentada esperando um usuário pedir para pegar um livro emprestado.

Não precisa ter medo.

Os estudantes de Biblioteconomia, por sua vez, não são jovens sem expectativas de vida que estão indo para onde a vida levar. Embora falte identidade profissional aos estudantes e muitos entrem no curso porque a nota de corte é baixa mesmo, essa realidade está mudando porque existe um leque enorme de possibilidades para quem estuda Biblioteconomia e a profissão é muito importante para a sociedade, sobretudo a contemporânea, que produz informação de forma exponencial. E não, não é qualquer pessoa que sabe organizar informação.

Por conta de todas essas dúvidas e reflexões, e pra tentar explicar que não estudamos para limpar livros, eu decidi criar uma espécia de perguntas e respostas, com as perguntas que mais fazem pra mim. Espero conseguir esclarecer um pouco!

Fonte
Mas, afinal, o que um estudante de Biblioteconomia estuda?
Os cursos de Biblioteconomia existentes no Brasil são muito variados. Aqui no Rio de Janeiro existem três instituições federais que oferecem esse curso de forma presencial e em cada uma o foco é diferente. No geral, os cursos de Biblioteconomia possuem muitas matérias relacionadas com o curso de História, como por exemplo História da Arte, História do Registro da Informação, História brasileira… Mas também possuem matérias como Tecnologia da Informação, Arquitetura da Informação, Arquivologia, Museologia, noções de Ciência da Computação, Gestão de Informação, Administração e Conservação e Restauração. Atualmente discutimos muito questões relacionadas a inteligência artificial, Big Data, competência em informação e inovação na área.
 
E o que o Bibliotecário faz DE FATO?

Depende de que tipo de bibliotecário ele é. Existem bibliotecários atuando como agentes culturais, contadores de história, normalizadores de textos. Outros atuam em redações de jornais, escritórios de advocacia, hospitais, editoras de livros, cinematecas, museus, arquivos, empresas de TI, e-commerce, laboratórios e até nas Olimpíadas… Cada bibliotecário tem suas competências de acordo com seu ambiente de trabalho e especialização, mas todos trabalham com a dinamização, organização e disseminação da informação e do conhecimento.

Confesso que o lugar mais comum de trabalho para um bibliotecário é, vejam só, as bibliotecas (que podem ser especializadas, comunitárias, especiais, universitárias, públicas, digitais, escolares, etc.), mas conheço profissionais que trabalham em todos esses lugares que citei.

Eu, por exemplo, faço estágio em uma biblioteca escolar e como é de imaginar, ela tem como objetivo incentivar à leitura, auxiliar os alunos nas realizações dos trabalhos escolares, promover a cultura e atividades extra-classes, então a equipe da qual faço parte planeja e organiza feiras de livros, encontros literários, encontro com autores e eventos do tipo. Além disso, bibliotecários de bibliotecas escolares trabalham muito com competência em informação.
Vocês ficam muito no computador. Ficam lendo e acessando ao Facebook? A rotina é tranquilinha?
NÃO! Nós não ficamos no computador navegando sem propósito na internet o dia inteiro. Não somos pagos pra isso. Dá tempo de fazer isso? Talvez. Mas não dá pra ficar o dia inteiro. Os bibliotecários utilizam o computador para realizar estatísticas, para fazer o processamento técnico dos livros e documentos para que eles possam ser emprestados, realizar o controle de empréstimos, planejamento de atividades, manutenção do acervo, compras, pesquisas e outras mil coisas que se pode fazer além de dar like na vida alheia. Sei que é difícil acreditar que o computador é útil pra outras coisas além de “socializar” com os amigos, mas acredite.

Mas… e o fim do livro?
Livro é um conceito e não um objeto. As pedras escritas, o volumen, o pergaminho, o códex e aquele ePUB que você baixou contendo um romance, são livros. A humanidade produz muita informação todos os dias. Por isso, também registra muito conhecimento todos os dias. Com a tecnologia TODAS as áreas da vida em sociedade foram modificadas, e o que aconteceu? Nos adaptamos. Com o livro não foi diferente, portanto, não contem com seu fim, muito menos com o fim dos profissionais da informação, pois eles também estão se adaptando. Atualmente, vivemos na “sociedade da informação”, ou seja, atualmente informação é o instrumento que possibilita a maior parte da força de trabalho ativa, por isso, mesmo que hipoteticamente o fim do livro estivesse próximo, ainda teríamos muita informação a ser organizada e democratizada por aí. Mas esquece essa história de fim do livro, isso não vai rolar.

O mercado de trabalho é péssimo, não é?
Em que área que o mercado não está péssimo, não é mexxmo? O mercado de Biblio não é o pior. Eu considero bom o mercado para profissionais bibliotecários, o número de vagas de emprego é considerável e as possibilidades de atuação são infinitas. Como eu já disse, a humanidade produz muita informação todos os dias. A humanidade necessita de profissionais que saibam gerir essas informações, por isso o mercado é bom para formados em Biblioteconomia. Não vou dizer que os salários são ótimos, em sua maioria não são, pois é sim uma profissão desvalorizada, mas bons profissionais conseguem bons salários relativamente fácil. É preciso mais que uma simples graduação para ganhar bem, porém não conheço um formado desempregado (com certeza existe, mas eu não conheço :p).

Só conheci bibliotecária chata e bibliotecário chato até hoje.
Existem aos montes, sim. Infelizmente, todas aquelas afirmações que ouço todos os dias referentes ao curso e ao profissional, todas as dúvidas que as pessoas possuem com relação à área, não são infundadas. Muitas bibliotecárias de bibliotecas escolares, por exemplo, gritam e pedem silêncio o tempo todo e dizem ‘não’ a quase tudo, além de não gostarem de trabalhar com crianças e adolescentes. Verdade seja dita! Contudo, bibliotecários apaixonados e o próprio mercado estão transformando essa paisagem em algo bem melhor. As Bibliotecas Parque são exemplo disso, são locais de cultura e não de silêncio, além de espaços democratizadores de fato. Por isso, se você leu esse texto e ele causou um conflito na sua cabeça entre o que foi dito e o que você já vivenciou, saiba que bibliotecas ruins ainda são realidade, mas dê mais uma chance a esses espaços, pois você pode se surpreender.

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A tendência das pessoas é valorizar aquilo que está na moda, o que quase sempre é o mesmo que aquilo que dá dinheiro. Ser bibliotecário não é ter o lucro como objetivo, pois, essencialmente, as bibliotecas são espaços de cultura democrática e livre, então não geram lucros imensos nem diretos, muito menos imediatos (às vezes não geram lucros palpáveis). Ser bibliotecário é realizar um trabalho puramente social. Existem aqueles que ganham 15 mil por mês, mas não são a regra, por isso essa profissão, assim como muitas outras, é extremamente desvalorizada. Para ser bibliotecário é necessário ter em mente que será preciso matar um leão por dia na luta contra esse modelo de sociedade escrota que construímos, ou então você estará fadado a ser apenas mais um medíocre, ganhando seus salário para realizar tarefas que não são de sua competência, tendo que trabalhar em um cubículo que mais parece uma sala de depósito, pois (tenho que ser realista) é isso o que fazem as empresas com os bibliotecários sem paixão.

Sociologia desconexa

Há alguns dias terminei de ler Precisamos falar sobre o Kevin, um livro extremamente denso que conta a história da relação conturbada entre uma mulher que não desejava ser mãe e seu filho indesejado. Na verdade essa descrição é rasa, pois o livro é muito mais que simplesmente a descrição de uma relação familiar fora dos padrões convencionais. Precisamos falar sobre o Kevin levanta questões sobre as quais geralmente não nos damos o trabalho de refletir como, por exemplo, as relações de convivência de jovens psicopatas com seus pais e com seu próprio eu e as consequências dessas relações para a sociedade.

Claro que não é comum ficarmos pensando sobre psicopatia, nem esse é um assunto agradável ou fácil para ser discutido em mesas de bar e rodas de conversa, ainda mais em tempos de telejornais movidos a tragédias. Porém, lendo esse livro algumas questões rodearam minha cabeça e eu gostaria de discorrer sobre elas por aí, até solucionar, embora não ache provável que isso aconteça agora.

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O livro é composto por cartas escritas de Eva Khatchadourian, mãe de Kevin, para seu ex-marido Franklin. Apesar das cartas serem direcionadas ao ex-companheiro, Eva descreve com riqueza de detalhes os acontecimentos de sua vida conjugal e os sentimentos que a preenchiam desde o início do relacionamento dos dois, passando pela maternidade até o massacre que arrancou sua vida de suas mãos. É na maternidade que me prendo em um primeiro momento, já que acredito ser esse o enredo do livro. Há algum tempo conversei com uma amiga que saiu de casa e estava muito feliz por isso, não pelo fato de morar sozinha em si, mas por não ter que conviver com seus pais diretamente. Durante a conversa, nos questionamos sobre a obrigação de amarmos nossos pais, mesmo quando não amamos. Essa relação maternal tão idealizada nasce de onde? É uma questão intrínseca ao ser humano ou uma construção social? Ela me contou um pouco sobre uma comunidade onde as pessoas acreditam no amor livre. Nesse lugar, quando uma mulher gera uma criança, esse ser é cuidado por todos como um “filho de todos”. É um entendimento de que o filho não é da mãe, mas do mundo e a mãe um suporte pra essa vida.

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Eva nunca teve vontade de ser mãe, inconsequentemente decidiu engravidar para satisfazer o marido que tinha o sonho de ser pai. Durante a gestação, percebeu o erro e, a partir de então, não conseguiu estabelecer vínculo materno com o bebê, nem mesmo quando ele foi entregue em seus braços logo após o nascimento. Kevin, o filho, rejeitou sua mãe assim que nasceu, não aceitando ser amamentado pela mãe e sendo muito mais receptivo ao seu pai. Desse cenário surgem duas questões para mim, a primeira é a influência do amor materno na criação de vínculo entre mães e filhos durante a vida; a segunda é a influência do amor materno na construção de personalidade do indivíduo. O amor que as mães sentem por seus filhos – ou a falta de amor -, determina, puramente, a personalidade desse filho? E a relação que é construída após o nascimento é influenciada pelos sentimentos sentidos pela mãe quando o bebê ainda era um feto?

Voltando à conversa que tive com minha amiga, tentamos entender porque uma mãe dizer que não gosta de seu filho é visto como tão criminoso quanto essa mesma mulher ter matado alguém e um filho não gostar dos pais parece ser mais aceitável, embora não menos marginalizado socialmente. As pessoas sempre tentam justificar a falta de vínculo que um filho com os pais com algum possível erro dos próprios pais na criação desse filho, mas a inexistência de vínculo da mãe para com o filho é injustificável. Quais são os fatores que determinam os sentimentos de uma mãe para seu filho?

Dessa relação entre pais e filhos, nasce outra questão em minha cabeça sobre como é vista a relação de amor romântico entre parentes. Mas isso é história para outra hora.

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Kevin rejeitou sua mãe desde o nascimento, cresceu de forma reclusa, foi uma criança desinteressada por qualquer coisa, mas sempre apresentou sinais de crueldade. Em determinado momento, respondendo ao insistente questionamento sobre o porquê de ter matado sete colegas de classe, um funcionário da escola e uma professora a sangue frio e sem arrependimentos, Kevin diz em rede nacional que fez isso por necessidade de entreter a massa, uma vez que a tragédia vende porque as pessoas estão entediadas com a própria vida.

Me pergunto, sinceramente, a causa de muitas pessoas, realmente preferirem ficar em frente a TV assistindo à tragédias, massacres e misérias todos os dias, ou o porque do número de exemplares dos jornais serem triplicados quando acontece ataque terrorista ou desastre. Atualmente todos esses acontecimentos se tornaram banais e corriqueiros, não é difícil chegar à conclusão de que a vida não anda valendo muito nos dias atuais, mesmo assim notícias ruins parecem movimentar o cotidiano, tirar as pessoas de seu lugar comum, fazer com que elas reflitam sobre sua existência e seu lugar no mundo. Andará a vida tão sem graça e sem sentido?

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A educação pode influenciar na mentalidade de psicopatas?

Estou interessada, atualmente (além de outros assuntos), em estudar sobre Biblioterapia, que nada mais é que a terapia realizada com o auxílio de livros, que pode ser aplicada em processos de desenvolvimento pessoal, educacional, tratamento de traumas e outras necessidades. Lendo Precisamos falar sobre o Kevin não pude deixar de associar um assunto a outro. Não entendo nada de psicologia então posso estar viajando demais, mas me questiono o quanto a pedagogia e os estudos neurológicos, psicológicos e terapêuticos podem influenciar ou não as “mentes perigosas”. Alguém me ajude!

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Dificilmente leio livros sem que eles acabem deixando minha mente fervilhando de ideias ou questionamentos. Precisamos falar sobre o Kevin instigou muitas delas. Este é um livro para ser lido com a mente limpa de influências jornalísticas e sensacionalistas, porque mais que a história de um massacre, narra a angústia de uma mulher diante da maternidade.

Algumas vezes crio vontade de aprofundar leituras, mesmo que quase sempre não faça isso, minha gaveta interna está sempre cheia de discussões inacabadas, por isso tive que esvaziar minhas questões sobre esse livro aqui no blog. Eu não tenho respostas para nenhuma dessas questões, me desculpem se vocês se depararam com um texto incoerente e desconexo, sem início, meio e fim, mas meu objetivo foi apenas colocar pra fora minhas interrogações.