Somos+ | Adriana Lima

 

Bibliotecários e bibliotecárias são pessoas diversas. Pois é, essa afirmação parece bem idiota no primeiro momento, mas não quando você para pra perceber que imagem surge na sua cabeça ao ouvir “bibliotecários e bibliotecárias”. O senso comum construiu um estereótipo desses profissionais, assim como para outros, que não corresponde totalmente à realidade. E pode ser que exista mesmo muitas coisas em comum entre as pessoas que decidem cursar Biblioteconomia, mas acredite: somos todos muito diferentes uns dos outros.

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Pensando em explorar essas diferenças, decidi fazer uma série de entrevistas com profissionais da área presentes em diversos setores e conhecer suas ações para além das bibliotecas, profissional ou pessoalmente. O objetivo é quebrar os estereótipos da personalidade e da limitação de atuação, mostrando o profissional da Biblioteconomia como um ser humano interessante e interessado, como realmente pode ser, e falando um pouco sobre múltiplos espaços de atuação.

Nós somos muitos e somos diversos: pensamos de várias formas, nos posicionamos politicamente de maneiras diferentes, temos estilos de vida diferentes, não concordamos em tudo, não fazemos parte, necessariamente, de um grande clube de apaixonados pela leitura. Nem toda pessoa que se forma em Biblioteconomia possui interesse por mediação de leitura, livros, formação de leitores… É aquela história: do que mais a gente é capaz?

E vou esclarecer, pra ninguém dizer o contrário, que a proposta não é ir contra as bibliotecas e profissionais que se interessam por bibliotecas e leituras, mas isso a gente vê aos montes, por isso quero mostrar os outros lados.

Adiana Lima (1)

Para começar, convidei a pessoa que me apresentou à Biblioteconomia. Adriana Lima, que me conhece desde a infância e hoje me encontra pelos caminhos da profissão. Ela queria cursar História, passou pra Biblio e não se arrependeu. Se formou em 2013 pela Universidade Federal Fluminense e há 5 anos trabalha em uma das maiores empresas de jornalismo impresso do Brasil. Adriana tem 30 anos e conta que desde a faculdade decidiu que não queria atuar em biblioteca, “por achar um meio muito metódico e muito difícil de mudar, por conta dos alguns profissionais que acham que são donos de toda sabedoria existente”.

  • Como profissional, o que você faz exatamente?

Sou analista da informação, trabalho numa empresa de Jornalismo, com o conteúdo informacional. Indexo imagens, textos e vídeos publicados nas mídias do jornal, atendo aos usuários (funcionários) internos, auxiliando com as pesquisas, além de digitalizar o acervo antigo da empresa.

  • Como você avalia a relação entre o excesso de informação e  a preservação da memória no setor jornalístico?

A demanda da informação assim como o excesso de informação, devem ser bem estruturados como o processo de guarda e preservação devem estar alinhados para que futuramente, consigam ser recuperadas. Nesse sentido, acho importante um bibliotecário atuar para garantir que esses processos sejam realizados com sucesso.

  • No seu trabalho, quais são as principais características que você identifica em bibliotecários que os torna diferentes de outros profissionais da informação?

O conhecimento que o bibliotecário adquire na academia é fundamental para lidar com os ambientes em que a informação é o objeto de trabalho. No meu trabalho, por exemplo, tem historiadores, sociólogos, cientista político, que em conjunto,  trocam experiências e mantem o centro de documentação mais rico. No meu caso, ter um bibliotecário que estudou a representação da informação e todos os seus usos é um diferencial no tratamento da informação.

  • Quais temáticas são mais importantes pra você dentro da Biblioteconomia?

Acho que para acompanhar o desenvolvimento que estamos vivendo, a Biblioteconomia deveria focar mais em temas relacionadas à tecnologia, que é falado na sala de aula mas com pouca ênfase ou importância, além disso, acho importante o estudo de usuários.

  • Se dinheiro não fosse questão, o que você gostaria de fazer?

Gosto do que faço, sempre me vi trabalhando em empresa.

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Fonte

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Esse foi o bate-papo inicial. Pretendo realizar outros e espero que essas pequenas entrevistas nos ajudem no diálogo para o fortalecimento da ideia de que os profissionais da área podem ocupar mais e mais lugares no mercado de trabalho, não “apesar de”, mas principalmente pelas mudanças sociais e tecnológicas que estão ocorrendo. Pois somos muitos e somos diversos.

Ah, se você é bibliotecário ou bibliotecária e quiser participar, contando um pouco sobre seu trabalho ou hobby por aqui, pode entrar em contato. 😉

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Pela internet #3

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É hora de mais um “Pela internet”. Aqui, compartilho conteúdos onlines que julgo serem interessantes. É uma forma de contribuir para a construção do conhecimento geral, porque nem só de conhecimentos técnico e científico se faz um bom profissional da informação. Como já disse Edson Nery da Fonseca “Os bibliotecários mais ignorantes que me perdoem, mas cultura é fundamental.”

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O Jornal Nexo publicou um texto falando sobre como o clipe de “Apeshit”, de Beyoncé e Jay-z dialoga com a história da arte. Também no Nexo, um texto que fala sobre a devolução de obras de arte africanas que estão na França, aos seus locais de origem. Um debate importante e necessário para pensarmos memória patrimonial. O site Pitchfork publicou um artigo sobre 50 musicas que definem os últimos 50 anos de orgulho LGBT+ (em inglês). Já penso em várias atividades pra fazer na biblioteca só com essa playlist. Moreno Barros publicou no Medium os seis capítulos do livro “O futuro da Biblioteconomia“. Artigo interessante, no Mundo Bibliotecário, sobre captação de recursos para bibliotecas.

Essa postagem está bem curtinha, mas tem conteúdo pra horas aí, hein! Pra finalizar, lá vai um vídeoclipe:

 

Tchau!

XLI ENEBD – dias 4 e 5

Bom, pra finalizar o relato de experiência, volto aqui pra contar como foram os 4 e 5 dias do Encontro. A primeira parte você pode encontrar aqui.

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XLI ENEBD – 4º dia

Existem aqueles dias em que você sai pensando “UAU” e tem aqueles em que você sai com um ponto de interrogação gigantesco na sua cabeça. Esse quarto dia foi assim. Pela manhã houve uma mesa cujo tema foi “Reflexões sobre o regime informacional e o uso político da memória pelos profissionais da informação”, composta por Icléia Thiesen, Maria Nélida, Lídia FreitasLeila Beatriz e o mediador Javier Lifschitz.

Não sei o que falar sobre essa mesa, porque o debate me trouxe muitos questionamentos e ainda está tudo meio embaralhado aqui. Mas posso afirmar que essa mesa me tirou do lugar passivo de receptora e colocou em uma posição ativa de pesquisa. Por hora, fico aqui com as perguntas feitas pelo mediador às componentes da mesa: “Como ver a construção da memória em meio a pluralidade dos meios de registros?“, “Como relacionar o tema da pós verdade à construção do arquivo e como construir veracidades em uma época da pós verdade?“, “Como a política constrói o regime de visualidade?“.

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Logo depois participei de um minicurso sobre mineração de dados, com Fernando Durier, mestrando no tema, fofíssimo e paciente. Eu não conhecia nada sobre mineração de dados (escuto muito falar sobre Big Data, mas isso é a ponta do iceberg) e não é que eu tenha terminado o dia sendo uma especialista, mas esse minicurso foi bem interessante. Mesmo assim, ainda estou digerindo tanta informação, mas percebi que esse é um campo que merece atenção.

Segundo Fernando, mineração de dados não é só desenvolver software (aliás, você pode usar os já desenvolvidos), não é só fazer planilhas, não é só mexer com matemática, não é só montar gráficos. Porém, contudo, todavia, entretanto, maaaaaaaaas… um cientista de dados é aquele que “conhece profundamente métodos estatísticos e de desenvolvimento de software”. Ou seja, é um campo de atuação possível para bibliotecários e bibliotecárias que se interessam por sistemas e tecnologias de informação. Além disso, está chovendo vagas para “cientista de dados” por aí, isso eu já vi.

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No fim do dia, houve dois debates. Um sobre o sobre o profissional da Biblioteconomia e o movimento associativo e outro sobre a importância da preservação da memória dos Encontros. Das falas que me chamou atenção, saliento a do representante do CRB-7 que reforçou a necessidade dos bibliotecários e bibliotecárias participarem mais das atividades do conselho e ganhar corpo político para as lutas da área e disse que uma das formas que o conselho encontrou de incentivar a participação foi a criação da “Comissão de integração com estudante”, que ainda está no início. Procurei informações no site, mas não encontrei nada.

XLI ENEBD – 5º dia

O 5º dia foi mais curtinho pra mim. Pela manhã participei de uma mesa cujo tema foi “a pluralidade do profissional da informação: a diversidade em todos os campos da Biblioteconomia e C.I.”, com Francilene Cardoso, Mayco Chaves, Dandara Baçã e Cladice Diniz. Essa mesa foi muito boa, valeu muito a pena.

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Dandara reafirmou que vivemos em um contexto de racismo estrutural. A Biblioteconomia, dessa forma, está imersa em um contexto de racismo estrutural e, portanto, isso se reflete nas unidades de informação e bibliotecas. O racismo se reflete nas bibliografias, nos postos de chefia e gerenciamento, no perfil dos usuários, na forma como nos relacionamentos dentro desses espaços. É uma informação básica da qual não podemos nos esquecer durante a elaboração de políticas, por exemplo. Mas esquecemos quase sempre. Parte de sua fala foi baseada no texto “25 privilégios de que brancos usufruem simplesmente por serem brancos“. Por fim, ela citou diversas iniciativas voltadas para a luta contra o racismo e o fortalecimento do povo negro. Dentre elas a editora Malê, criada por um bibliotecário, a página Mulheres Negras na Biblioteca, o livro Biblioteconomia Social: epistemologia transgressora para o século XXI, entre outros.

No mesmo sentido, Francilene, autora do livro O Negro na Biblioteca, debateu o racismo. Ela ressaltou que o conhecimento histórico transmitido em nossa sociedade é totalmente branco. Inclusive nas escolas a História é contada a partir da expansão da Europa. Assim, obviamente a biblioteca não ficaria de fora: prateleiras repletas de livros de autores brancos contando suas visões de mundo. Livros de autores negros são poucos nas prateleiras, mas isso não se deve a pouca produção por parte deles. Francilene afirmou que como consequência disso “as informações que disponibilizamos para os usuários desmentem as informações dos movimentos de luta do povo negro”.

Por sua vez, Cládice mostrou uma pesquisa sobre acessibilidade e inclusão realizada em 63 universidades federais e 581 bibliotecas universitárias. O objetivo foi perceber se as universidades promovem a acessibilidade e apresentam em seus sites informações sobre os recursos que oferecem. O resultado mostra que nos sites de 33 das universidades estudadas não é possível encontrar recursos acessíveis para o conhecimento. No site de 7 delas não foram encontradas sequer informações sobre o assunto.

No fim, Mayco, bibliotecário da UFOPA, falou sobre sua experiencia em uma biblioteca que atende pelo menos 20 etnias indígenas diferentes e 15 comunidades quilombolas. Ele afirmou que as universidades não pensam nas especificidades de cada indivíduo. Dessa maneira cada sujeito é silenciosamente e violentamente obrigado a se encaixar nos modos vigentes. São reeducados ou apagados. Ainda, lembrou que a temática pluralidade é muito discutida por bibliotecários, mas efetivamente esses profissionais não pensam políticas pra tratar disso. Finalizando, defendeu a necessidade de escuta e participação. Não pensar as práticas partindo da biblioteca, mas em co-criação com os usuários.

O dia seguiu, mas não participei das outras atividades, então meu relato termina aqui. Espero que tenha sido útil pra pensarmos, discutirmos e agirmos em busca de uma Biblioteconomia mais rica. Participar desse evento com certeza provocou isso em mim.

Desculpa o textão e até mais.